Dr Stefano Fiuza categoria bethesda tireoide
Imagine um paciente de 45 anos, não fumante, praticante de esportes e que mantém uma dieta equilibrada. Ele chega ao consultório com um aumento persistente de um linfonodo no pescoço — aquela famosa “íngua” que não regride após o uso de anti-inflamatórios ou antibióticos. Para muitos, esse cenário parece contraditório. Afinal, o câncer de faringe não era uma doença restrita a quem fumou e bebeu excessivamente a vida toda? A resposta curta é: não mais. Nas últimas duas décadas, a oncologia de cabeça e pescoço testemunhou uma mudança drástica no perfil epidemiológico. O grande protagonista dessa transformação é o Papilomavírus Humano (HPV), especificamente o subtipo 16.
O que antes era uma exceção, hoje é uma realidade clínica frequente que exige um olhar especializado e, acima de tudo, humano. A biologia por trás da conexão Quando falamos de câncer de faringe associado ao HPV, estamos nos referindo principalmente à orofaringe — a região que engloba as amígdalas e a base da língua. Diferente dos tumores causados pelo tabaco, onde as substâncias químicas causam mutações diretas no DNA das células, o HPV atua como um “invasor genético”. O vírus se integra ao genoma da célula e produz proteínas (conhecidas como E6 e E7) que desativam os mecanismos naturais de defesa do nosso corpo, aqueles que deveriam impedir uma célula de se multiplicar descontroladamente.
É uma espécie de sequestro biológico. O resultado é o carcinoma epidermoide de orofaringe, que tem características moleculares e clínicas muito distintas dos tumores “tradicionais”. O paradoxo do prognóstico Há uma particularidade que sempre discuto com meus pacientes para acalmar a ansiedade do diagnóstico: embora o HPV seja o causador da doença, os tumores HPV-positivos costumam responder muito melhor ao tratamento do que os HPV-negativos. Na prática, a ciência moderna nos mostra que as células tumorais infectadas pelo vírus são mais sensíveis à radioterapia e à quimioterapia. Isso nos permite, em muitos casos, discutir protocolos de “descalonamento”, ou seja, tentar oferecer tratamentos menos agressivos para preservar a função da fala e da deglutição, sem comprometer as chances de cura.